segunda-feira, 5 de novembro de 2007

MOVIMENTO HARD-CORE


CAIAFA, Janice. O movimento hardcore. In: CAIAFA, Janice. Movimento punk na cidade: a invasão dos bandos sub. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.


O mínimo punk aqui é quase nada: o instrumento é o rangido, o vocal é o grito, cada música são segundos. É não tocar, não cantar: anti-música. Só o atrito.
Embora bem defmido enquanto som, o punk pode ser trabalhado por desvios (em ângulos sempre agudos de, por exemplo, cinco graus), pode ser aproveitado por outros estilos de som que o transformam, pode ser assumido por uma banda como "influência" e pode ser visto no panorama do rock, mesmo que seja para ele o transtorno e a subversão. Mas não existe transição possível do hard-core. Ele não passa do que é e não serve para outra coisa senão para si mesmo. Ele não pode ser convertido ou adaptado porque o que usa para se fazer é tão horrível que inassimilável (como a abominação da suástica). Para os conversores não há ponto de inserção num corpo tão áspero (o grito, a exasperação, o barulho). Os centros de poder atêm-se aos impasses, engrossam os coágulos dos fluxos, transferem-nos para sua zona de potência e lá os reverberam: as mídias tomam os braceletes no que eles podem ter de pulseira, o negro no que ele pode ser elegante, o cabelo arrepiado no que ele pode compor um penteado (o que portanto já não é mais o punk), e os reproduzem para quem quiser comprar essa cópia de si. Do hard-core não há o que aproveitar, não hácomo domesticar tanto atrito. O perigo para o hard-core enquanto núcleo de resistência é menos ser absorvido do que provocar sua própria destruição. Porque nessa relação variável que a máquina-de-guerra tem com a guerra, pode-se dizer que ele está muito próximo de sua abolição. É mais fácil ele morrer por si mesmo, pelo extremo da linha de fuga. Quando ela vinga por um processo por demais violento, por uma desterritorialização "à la sauvage", o deslocamento abrupto é para ela mortal. O hard-core é como a suástica: sua violência é o que o toma inassimilável e portanto o salva e ao mesmo tempo o aproxima da absoluta autodestruição.
Um pouco mais e é o fim (um fim que vem pela própria fuga e não de fora pela absorção). Um pouco mais e o hard-core é um estrondo só, de explosão ou de desastre. Ir um mínimo além do hard é incendiar ou quebrar tudo em volta. O ódio hard está no limite dessas provocações: tudo pelos ares, destruição total, fim do mundo. O hard-core é um ritmo que se mede pelo mínimo de tempo possível em que se pode produzir uma música. Ele figura numa escala de aceleração segundo o tempo das músicas em contagem regressiva por subtração: hard-core (até 30 segundos), trash (até 18), laudfast (até 12).
No fanzine A Prensa, de JF, Vietnão me mostrou o "núcleo hardcore": uma circunferência negra, pequena e concentrada dentro de uma bem maior e branca, que são os punks. Na fIgura seguinte o núcleo negro se expandiu e tomou conta do espaço da outra circunferência, cobrindo todos os claros é o Movimento crescendo pela força do hard-core. Hardcore é esse ceme negro e irredutível que resiste enquanto tudo está branco em volta, e se alastra até enegrecer todo o resto. Vampiro tem um jaco com o símbolo hard-core na manga, cujo traço parece um desdobramento do "símbolo da paz", também uma insígnia hard-core. No símbolo hard-core se vê um H e um C. O símbolo da pàz é usado invertido - me diz Vietnã - significando "paz artificial". Ou então duas metralhadoras se cruzam sobre ele acompanhando o desenho, como na capa do disco dos Ratos de Porão (banda punk - SP).
Na extrema violência do visual e do som, os hard-core estão pedindo a paz. A banda Terveet Kadet da Finlândia aproveita esse símbolo retifIcando as , curvas do C para escrever "TK" (suas iniciais). Usa-se também "M H C" para indicar que se é hard-core. Como se denominam diretamente por vezes, embora seja raro, a denominação genérica émesmo "punk". Por essa época contudo, por volta de agosto de 84, ostentar esses símbolos e optar por esse som tornou-se muito expressivo e definidor mesmo de uma posição dentro do bando. Os "radicais" começaram a ficar mais juntos entre si no point e mais longe dos outros. Eram também Cláudio e Caverna. O Caverna estava usando agora um jaco que ele comprou do Vampiro e que tinha pintado nas costas:

MHC
ME TIREM DESSE INFERNO

"Me tirem..." é uma música do Olho Seco (SP). No grupo tão variado em cores e preferências, eles eram de uma gravidade de grandes pássaros, distantes e desconfiados. E era tão vivaz aquele seu segredo, juntos insistindo no som e no negro, que em alguns momentos eu esperava que talvez esse núcleo se espalhasse mesmo e afirmasse o Movimento, apesar das condições adversas. De toda forma, era preciso aguardar.
No sábado, 18 de agosto de 84, houve uma festa na casa do Satanésio, que ele e Maria organizaram. Na Rua do Riachuelo, uma porta alta, e dentro um corredor estreito e escuro longo que dá na sala e na cozinha, a casa se realiza bem no fundo, Numa época o Coquetel ensaiava lá no quarto do Satánas, uma das portas desse corredor frio. No dia da festa havia gente na calçada do lado de fora, mas só fui encontrar os hards nesse fundo da casa onde já rolava um som hard-core. Eles estavam encostados na parede em torno da sala, a um tempo coagidos e fazendo o cerco. Vietnam estava com um moicano aguçadíssimo, Vampiro e Nelson com o cabelo bastante arrepiado. Vietnam com o jaco cheio de bótons e um paninho "M H C" que ele tirava do coturno para o jaco, para a calça. Todos muito visuais, Nélson com a camisa preta com os nomes das bandas paulistas e o Vampiro com a camisa desbotada, várias impressões superpostas e, ilegível agora, denunciava um longo percurso de opiniões e preferências. Às vezes eles iam para o meio da sala e agitavam, e voltavam a seus postos, separados dos outros caras que circulavam pela casa. Ao estar com eles, senti que não podia estar com os outros, os hards estavam ali traçando mesmo um outro lugar. Então era isso: os punks são uns e os hards são outros, ou os punks são os hards e os outros já não são. Ou então não há mais punks. Como se o Movimento houvesse recuado para esse núcleo negro e resistente onde, talvez menos exposto às contaminações, envergava ainda o que têm sido as estratégias de seu exercício. Mas isso era possível, ainda? E como e em que momentos? Será que o Movimento Hard-Core seria por fim também neutralizado, ou o punk recobraria forças vindo agora do coração do subúrbio, do ceme resistente, radical, hard-core? O que aquele momento mostrava contudo - eu veria em seguida - não era essa alternativa da retomada ou do recuo definitivo, mas algo que não se oferecia assim de imediato, que era preciso conhecer mais, aguçar mais os sentidos para perceber.
O som hard é então interrompido para se ouvir um disco do Bauhaus - que era o som que agora se estava preferindo. Foi curioso vê-Ios apreciando um som mais fmo, sem agitar nada - ouvindo. Para os hards a festa havia tenninado. Mas às 10 e meia a festa acabou mesmo, por decisão da dona da éasa. À porta, era preciso dar um rumo àquela noite. E quase todos se preparavam então para ir ao Papagaio's. O grupo todo na calçada, na agitação de defmir os que vão, como e com quem. Kama e Yama estavam nessa festa. Soube depois que vpltaram para casa em seguida. Os hards a um canto da Riachuelo mal-iluminada. Decerto não iam ao Papagaio's. Seus planos era tentar chegar a um bar de que havíamos tido notícia no dia anterior no point: o Cactus, em Botafogo, onde se dizia que era possível levar fitas e dançar o próprio som. Em geral o punk quer isso. Nem pagar, nem consumir, chegar num lugar onde possa ouvir suas fitas, que é o único som de que eles gostam. Havia então claramente dois grupos, dois rumos diferentes, e aquele era o momento de as coisas se decidirem, ir ou não ir com quem. Quem ia para a danceteria já tinha planejado isso antes, esse' programa era agora habitual. Mas para mim foi mesmo uma escolha, porque durante o tempo todo da festa estive com os hards, ao mesmo tempo em que duas amigas, Rosaly e Margot, acompanhavam os outros à danceteria. Mas a coisa era muito simples: era tentar achar esse lugar novo, o Cactus, aonde as referências vindas por boatos poderiam ou não nos levar.
E nos levaram a umas ruas vagas e poeirentas onde ficamos andando. A chuva começou quando já procurávamos o número, enxaguando o sabão dos cabelos pontudos que no entanto se arrepiavam ainda mais. Eram Vampiro, Vietnam; Nélson, Alcatéia e Cláudio. Eu os via então juntos fora do point, pela primeira vez só eles, fonnando um outro bando entre si, e muito mais exuberantes, numa sorte de alegria sombria, graves e vivazes. Descobrimos que o número que nos haviam dado não existia, a rua acabava em silêncio - paramos na absoluta desorientação. A chuva tinha aumentado muito. Prosseguimos numa direção e fomos perguntando: a quem passasse (e eram poucos àquela hora ali) e no único bar aberto. Ninguém sabia desse lugar. Tomamos outra direção e procuramos mais, pensando que poderia ser o mesmo número numa rua próxima ou então na mesma rua mas do lado oposto, até começannos a considerar outros lugares para ir. Paramos sob uma marquise completamente inundados, depois continuamos, já em busca de qualquer outro lugar. A chuva mais fraca agora, caminhávamos conversando pelas ruas que não traziam mais nenhuma referência possível, em que não importava mais a numeração. Os nomes dos bares que assomavam como sugestão eram mera parte da conversa, ninguém queria ir a lugar nenhum. Não era como quando o bando inteiro caminhava, imenso pelo grande número e pela intensidade, assombrando pelo caminho. Mas agora, a irreverência silenciosa desses hards, pela rua e à noite e a esmo, afirmava não uma persistência nem uma retomada, mas uma insistência ilocalizável, contudo real e vislumbrada ali, subitamente atualizada, que deixava a-desejar, daria ainda o que pensar sobre o que desde o início tinha sido o estilo daquele bando. Aquele quase-nada apenas perceptível que produzia a intensidade e punha o bando a risco: em que se apostava a um tempo o seu desaparecimento e o seu exercício, e para mim também uma pista para compreendê-los.
Para o que eu procurava as palavras, a um tempo exatas e tão-só alusivas, o que me fazia percorrer as literaturas (das ciências sociais, da filosofia) à cata de um meio de não dizer, ou quase isso. Que não o discurso evasivo, nem o direto, que não nenhum truque lógico ou jeu de mots, nem recursos tipográficos, nem a retórica tortuosa, nem os virtuosismos neológicos - que aprisionam, eu pensava, nos circuitos previstos da idéia e da frase. Precisaria talvez desses conceitos anômalos em que no esforço da definição multiplicam-se as negativas, provocando uma margem imensa do que não é para dizer (não é isso, e não é isso, e nem isso). Não as tentativas repetidas que por aproximações sucessivas cercam um alvo. Mas a obliqüidade desejada, aí nessa afirmação vazada de nãos, ao enunciar o mínimo para livrar ao máximo o pensamento do jugo de refazer constantemente os binarismos, os circuitos viciados, evitando o que se arrasta na língua e que é a prisão do signo mesmo, que está no próprio ato de dizer. Projeto que nunca se realiza por completo, em que essa ameaça é um móvel que é preciso deslocar constantemente. À procura, portanto, menos dos autores que de momentos deles. Os momentos mais velozes de seu pensamento que, paradoxalmente, eram instantes de quase silêncio. Não o Bateson da esquimogênese, certo e triunfante, mas o instante (talvez mínimo e quase indiscemível em sua obra) de suspensão e sobressalto em que era preciso inventar outra coisa (o "steady state") para pensar a ilha de Bali.
Não o Lévi-Bruhl sem esperanças (como dizem) ao considerar o incognoscível das sociedades primitivas, mas ele em suas "promenades" pelo Bois ou Bagatelle, nos instantes em que a inquietude do corpo abrigava aquelas voltas do pensamento não como falha mas como afirmação; Clastres em sua celebração da linguagem, sempre que sua acuidade etnográfica e o uso sem culpa que faz do saber antropulógico me sugeriam a força do antropólogo que se distanciou nã'à porque viajou muito tempo, mas porque respeitou o que estudava em sua positividade enquanto seu pensamento também se fazia acontecimento, contra as categorias dominantes que viriam truncar seu exercício, assim também trabalhando para baldar o Estado, pensée sauvage. Na sociologia das gangues, esses momentos em que a força mesma do que se descrevia irrompia e escapava do que ainda se enunciava de dentro de um saber disciplinar. De Deleuze mesmo, o exercício de virar e revirar seus Mille Plateaux, tomá-Ios não como guia ou manual de conceitos, mas como engrenagens para a máquina-de-guerra que os punks, estar com os punks, pensar os punks, prepara. Os instantes de Lyotard em que ele repensou as ciências, e mesmo a construção do saber no Ocidente, em que notou e mostrou as fugas possíveis, falou das minorias, ocupou-se mesmo do feminiIío.
E esse debruçar-se sobre o sobressalto do pensador não é para enganá.J.o, nem porque alguns momentos sejam bons e outros maus - mas para que sua distração permita uma outra em que seja possível surpreender-se a todo instante, para que a proximidade com o pensamento seja constantemente. empurrada à frente, adiada em prol de um estranhamento. Em que a questão do antropólogo pesquisando em sua própria cidade se recoloca, apoiando-se em três níveis simultâneos: o funcionamento interno do pensamento, os problemas da escritura e a relação com a prática social concreta que se estuda. Nesse momento a questão de onde se está é irrelevante, trata-se de que nas fronteiras sempre mutantes desses níveis se trabalhe o silêncio, a pausa, a suspensão, ashesitações, as mudanças inesperadas - em qualquer região do social onde se esteja, é a penumbra do discurso, uma zona de indiscernibilidade em que o pensador já seja questão para o pensamento, até que a ciência quase se calasse. O que é muito difícil e jamais se fará o bastante.
E como isso já é um impasse da escritura, é demasiado longo falar do que se faz de um só gesto. Aquela noite terminou com as despedidas ainda sob a chuva. Foi curioso porque todos os lugares que pude pensar disponíveis por perto eram inviáveis. O que se passava ali era completamente indócil ao esquema comum dos bares, em nenhum caberia a irreverência dos hards. Não havia mais trem àquela hora, eles iam tentar um último ônibus. Os relâmpagos continuaram a noite inteira.

sábado, 3 de novembro de 2007

Hardcore: el punk que escapó del pozo del nihilismo

Por:

Víctor Lenore
Ladinamo

Retirado de: rebelion.org

El hardcore, un género combativo con más de veinte años de existencia, atraviesa una etapa de mutaciones. Por eso decidimos tomarle el pulso preguntando a cuatro expertos: Xavi Cervantes (coordinador de redacción de Rockdelux), Boliche (ex Subterranean Kids y responsable del sello discográfico y promotora de conciertos Outline), Jordi Llansamá (fundador del emblemático sello barcelonés Bcore y ex bajista de 24 Ideas) y Pepo Márquez (coordinador de la revista Staf, cerebro de The Secret Society y miembro de Our Bed Is The Ocean, además de dirigir Winter Forever Recordings).

¿Qué es el hardcore? (Explicación para no iniciados).

(Jordi) Joder, vaya preguntita. Pues es un estilo de música ligado a un estilo de vida. Yo diría que el hardcore es la evolución natural del punk, pero con mas cabeza, menos autodestructivo y más positivo. Menos "no future" y más "vamos a cambiar lo que no nos gusta".

(Xavi) En una palabra: actitud. En unas cuantas más, el hardcore es la evolución del punk que escapó del pozo del nihilismo.

(Boliche) De hecho, creo que es más importante el aspecto ideológico que el musical. Es la vertiente mas dura y salvaje del punk, con un mensaje más positivo aunque irónico a la vez. Respecto al sonido, es básicamente música rápida, agresiva e inconformista. Solía funcionar de manera autogestionada o en locales marginales, aunque ya se ha hecho un amplio hueco en todos los circuitos comerciales.

Orígenes/raíces del género.

(Jordi) Yo creo que la cuna es Estados Unidos, con bandas como Black Flag, Minor Threat, SSD, Negative Approach y mil más.

(Pepo) Dependiendo del libro que leas, la cosa varía. Yo me quedo con lo siguiente: al parecer los grupos pioneros ensayaban en cines donde pasaban películas porno (desconozco si estaban abandonados o no). Al porno en Estados Unidos también se le llama hardcore. De ahí, dicen, el nombre. Las bandas que empezaron todo: Bad Brains, Black Flag, Youth Of Today, Minor Threat y muchas más.

(Boliche) Mientras en EEUU (concretamente, en California) bandas como Black Flag o Circle Jerks adoptaban este término para definir su estilo, en Gran Bretaña los grupos más duros del momento (como Disorder, Chaos UK o The Insane) también se llamaban hardcore punk (obviamente, para distinguirse de las primeras bandas del 77 como The Damned o Sex Pistols). Esto se fue extendiendo a todos los países del mundo.

(Xavi) Aquí no se va a poner de acuerdo nadie. Creo que fue un fenómeno simultáneo que surgió en Los Ángeles, Nueva York, Washington, Londres… Había una necesidad compartida de hacerse oír, de utilizar el ruido y la velocidad como herramientas de autoafirmación en un contexto de descontento social, cultural y, sobre todo, individual.

¿Cómo echa a andar el hardcore?

(Xavi) Evolucionó por dos caminos. Uno era el formal, el de la aceleración, que más tarde sería recogido por el thrash metal y el grindcore, pero también por bandas como Hüsker Dü, que intentaban asimilarlo con estructuras melódicas más propias del pop. El otro camino era el ideológico-existencial, asociado a Minor Threat o Youth Of Today; el straight edge, que, visto con perspectiva, y pese a una innegable connotación sectaria, respondía a un posicionamiento vital realmente alternativo. Por ejemplo, la X que se pintaban los straight edge en la mano hacía referencia a la X que algunos bares, clubes y discotecas de Estados Unidos les pintaban a los menores de 21 años (es decir, a los que no podían beber alcohol). Al asumirlo como identificativo estético-simbólico los straight edge estaban afirmando una diferencia, combatían a la vez el mundo adulto y ese mundo “joven” basado en el viejo orden del rock.

¿Cómo y cuándo llega el género a España?

(Jordi) En los ochenta, con bandas como Subterranean Kids, GRB, Anti-Dogmatikss, L'Odi Social, etc.

(Xavi) Llegó tarde, desde luego. Primero tuvo que asentarse la visión punk del asunto, y eso llevó bastante tiempo. Odio las fechas significativas, aun así creo que el hardcore se hizo verbo cuando empezaron Subterranean Kids.

(Boliche) Las primeras bandas que podemos definir como hardcore son Subterranean Kids, GRB, Anti-Dogmatikss, L’Odi Social... Surgieron casi todas en Barcelona y periferia a principios/mediados de los ochenta. Algunas tocaban punk y simplemente digamos que adaptaron su sonido a las nuevas influencias. Algo más tarde, en casi todas las comunidades autónomas había bandas locales autoeditándose maquetas y tocando en los pocos sitios donde era posible. A principios de los noventa, hubo una especie de revival (por llamarlo de alguna manera) con nuevas bandas, gente más activa involucrada en fanzines, creando sellos independientes, emisoras de radio, montando conciertos y giras... El sello barcelonés Bcore editó a casi todas las bandas que sirven como referente de ese momento, entre las que destacan Corn Flakes o 24 Ideas, entre otras.

¿Cuál es el disco de hardcore que más has escuchado en tu vida?

(Jordi) ¡Pues no lo sé! Pero The Crew de 7 Seconds podría ser uno. Su hardcore positivo y simpático siempre me ha dado buen rollo.

(Boliche) Por decir solamente uno, quizás Pick Your King de Poison Idea. Tiene todo lo que un disco de hardcore tiene que tener. Temas cortos, rápidos en su mayoría, furia...

(Xavi) Para mí, la discografía completa de Minor Threat. Atesora la esencia primera y última del género, refleja la excitación del momento y da entender los conflictos que llevaron a la disolución del grupo, la contradicción entre lo pretendido y la reacción provocada… Sin exagerar, es arte.

(Pepo) Yo no sé... diré varios: The Shape Of Punk To Come de Refused, Scratch The Surface de Sick Of It All, Unorthodox de Indecision, Call On My Brothers de Ignite (una banda que se echó a perder, pero que tiene dos discazos inmensos), Out Of Step de Minor Threat...

Mutaciones en los noventa: ¿Qué es el post-hardcore? ¿Y el slowcore? ¿Y el emocore? ¿Son extensiones del hardcore? ¿Estilos distintos? ¿Cuáles son las conexiones/diferencias con el hardcore clásico?

(Xavi) ¡Bienvenidos al infierno de las etiquetas! El emo fue un buen intento para mantener la conexión con el hardcore por parte de unas bandas que, habiendo crecido con el hardcore clásico, preferían ofrecer una música diferente. También sirvió para catalogar a grupos que supuestamente tenían una necesidad expresiva que, también supuestamente, no encontraban un hueco en el hardcore clásico. Pero, como casi todo, se traba de una verdad a medias y de una mentira sin mala intención. Quizás se deba todo a una cuestión de supervivencia. Formalmente, el hardcore quedó codificado muy rápidamente. Así que no era extraño que algunos asumieran la base hardcore, sólida y codificada, para afianzar nuevas propuestas, mutaciones más o menos excéntricas y más o menos interesantes… jazz, noise, metal, funk, pop…El emo y el post-hardcore entran en esa lógica del matiz, esa rémora inevitable del postmodernismo.

(Pepo) Supongo que todo lo que lleve el sufijo “-core”, tiene más que ver con una actitud, una manera de enfocar esto de la música e incluso la vida, más que un estilo. Al fin y al cabo, hay grupos dentro de ese sufijo que están más cerca del pop clásico que de otra cosa y, sin embargo, se denominan "-core". Supongo que en los ochenta todo era más extremo, más dogmático: esto es esto e inequívocamente no es lo otro. Sin embargo, en los noventa todo se mezcló: llegan unos y mezclan con el jazz, otros meten pop y ruido y otros mezclan algo que no se sabe qué es.

(Boliche) Podríamos decir que son etiquetas creadas para definir estilos musicales, pero me preocupa más el hecho de que tengan que ver con el hardcore directamente o no, algo en común... Para mi son estilos distintos aunque hayan partido de la misma base. No soy quién para juzgar a nadie pero si antes hablábamos de cooperación como una seña de identidad del hardcore, difícilmente verás a miembros de bandas de un estilo determinado en conciertos de bandas de otro estilo. Por ejemplo, no creo que la audiencia del llamado post-hardcore o emo acuda a conciertos autogestionados de bandas de hardcore clásico. Y si no me equivoco, esto no es cooperación ni apoya una escena con identidad propia. Son cosas diferentes, no hay duda, lo que pasa es que queda muy bien la palabra post-hardcore en vez de rock o cualquier otra etiqueta supersobada. A la prensa local parece que le encanta...

¿Vive el hardcore un momento flojo, espléndido o normal? ¿Qué esperas del estilo en 2003?

(Xavi) Con el hardcore sucede lo mismo que con la mayoría de estilos. La capacidad de sorpresa se ha reducido considerablemente y cada vez hay menos margen de maniobra para presentar nuevos conceptos y nuevas formas.

(Jordi) Yo creo que sí vive un momento flojo en el sentido de que el avasallamiento de bandas y negocio es tal que se ha perdido un poco el sentido de comunidad. Por lo demás, esto se sigue manteniendo en pequeños circuitos y con bandas que, todavía, no han entrado en esta masificación.

(Pepo) El hardcore lleva en crisis algunos años. No sé qué espero para el 2003. La verdad es que hace mucho que no espero nada en concreto. Cada vez me desconecto más. Me interesan bandas que vayan más allá. No sé: Stand Still, Cave In... grupos que no son hardcore, pero que llevan el sufijo “-core”.

(Boliche) Siguen existiendo muchas bandas buenas a las que no parece que se les preste la debida atención y otras que sin merecérselo parecen haber caído en gracia a cierto sector de la prensa musical y se creen que se comen el mundo. Personalmente creo que el hardcore está estancado. Para la gran mayoría, es una moda musical. Pocos lo viven de verdad. Siempre hemos tenido nuestras virtudes y nuestros defectos y pienso que la cosa va a seguir igual, o sea que normalito... Ja, ja, ja.

Un póquer sin suerte

Nuestros entrevistados recomiendan artistas hardcore que no disfrutan de la suerte comercial que debieran. Además, recalcan la importancia de la caja recopilatoria de Dischord, un triple volumen que sirve de introducción a la historia del emblemático sello de Washington, del que salieron Minor Threat, Fugazi, Nation Of Ulysses, Lungfish y Smart Went Crazy, entre muchos otros nombres.

Xavi Cervantes recomienda:

Lungfish

Talking Songs For Walking, CD

(Dischord, 1991)

Salió a la sombra del Repeater de Fugazi y obtuvo menos eco del que merecía, pese a que su propuesta era también muy personal. Si alguna vez existió el emo, está en este primer disco de una banda que sigue en activo y extrañamente olvidada por muchos.

Otros artistas infravalorados que Xavi recomienda: Faraquet, Hoover, Kepone y Unsane.

Boliche recomienda:

Afterlife

Enter The Dragon, 7” y CD

(Crucial Response, 2003)

Independizándose del resto de bandas y sellos del Estado, Afterlife (Barcelona straight edge hardcore) han elegido la alternativa que más les convenía y han fichado por un sello extranjero ya consolidado y con una larga trayectoria dedicada en cuerpo y alma al hardcore. Crucial Response, veterano sello alemán, con importantes referencias a sus espaldas (Man Lifting Banner, Subject To Change, Colt Turkey...) ha editado su nuevo trabajo, Enter The Dragon, en CD y 7", respectivamente. Para la escena española es una pena que Afterlife (al igual que otras bandas nacionales) tengan que emigrar y editar sus trabajos en el extranjero debido al poco interés del consumidor habitual de hardcore-punk por bandas locales y a la poca solidez de los sellos especializados.

Otros artistas infravalorados que Boliche recomienda: The Challenge, Street Bastards y G.a.s. Drummers.

Pepo Márquez recomienda:

Planes Mistaken For The Stars

Knife in the Marathon, EP

(Deep Elm Records, 2000)

Son de Denver. Y me da igual cómo quiera la gente denominar su estilo. Esto es fuerza sin límites. Este EP es, sin duda, uno de los tres mejores EP que tengo. Probablemente llegó en una época de mi vida especialmente receptiva a ese sonido, pero lo cierto es que entré a fondo en esos seis cortes. Sonido sucio, gritos, cambios de ritmo, emo, noise, pasión, dolor. Y vuelta a empezar. Ese comienzo con "Scratching Rounds" y "Leaning The Room" te parte en dos y no te vuelve a dejar. De este grupo, lo que más me gusta es la voz y el juego de las guitarras. Es letal. La influencia de clásicos-pero-no-populares como Hot Water Music, Unbroken (a los que homenajean en el último corte con "Fall On Proverb") y bandas de Ebullition como Iconoclast, se hace patente pero no evidente. Tienen un disco posterior llamado Fuck With Fire editado por No Idea Records en 2001. Otra obra maestra.

Más artistas infravalorados que Pepo recomienda: Texas Is The Reason, By The Grace Of God, As Friends Rust, Battery e Iconoclast.

Recomendación común:

20 Years Of Dischord, Triple CD recopilatorio

(Dischord 2002)

(Xavi) Escuchándolo siento satisfacción y fascinación ante una lección de historia.

(Boliche) Bueno… es un gran trabajo, sin duda, pero ni mucho menos la piedra filosofal del hardcore. Lo veo necesario. Una buena compra repleta de información y música sobre un gran sello como es Dischord. Pero no hay que olvidar otras grandes escenas que quizás no han tenido la relevancia que se merecían como las de Boston, New York, la californiana de principios de los 80 o la europea misma; sería un grave error. En absoluto siento nostalgia.

(Pepo) A mí me da cierta envidia y, a la vez, cierta satisfacción poder vivir en la misma época en que vive Dischord. Poder sentir esa extraña sensación de espera frente a cualquier disco nuevo de Fugazi, o a los siguientes fichajes (nadie debería dejar pasar a Q And Not U)...

(Jordi): Yo siento mucha envidia sana. Es una discográfica que me inspira mucho respeto y admiración, tanto por los artistas como por las personas que trabajan en ella.